São exatamente 04:51 da manhã e aqui estou eu, no meio de uma insónia, a escrever esta publicação. Acompanhada por um chá de camomila (num copo com a frase “vou conseguir mesmo sem saber como” do Another Angelo) e pela voz de Karen Souza. Digam-me, que melhor cenário para escrever do que uma madrugada fria, uma vela acesa, um chá quente e uma insónia? Não há, certo?
Porque os artistas são assim, não é? Madrugadores, boémios, com a cabeça sempre a mil, incapazes de desconectar da própria arte.
Durante muito tempo, acreditei que tinha de ser assim. Que, para as minhas histórias fazerem sentido, precisavam de carregar sofrimento. Que tinham de ser dramáticas, um verdadeiro “espelho da alma do artista”. Ainda me lembro de escrever, nos meus devaneios pós-universitários, que a dor era a melhor amiga da criatividade. Que, sem dor, não havia inspiração nem história.
Vá, não me julguem – eu vinha de um curso de cinema, numa época em que estar acordado até às quatro da manhã, rodeado de cafés e cigarros, era quase um ritual obrigatório para passar as ideias para o papel e “conectar com o espectador”. O que é a vida sem um pouco de drama, não é?
"The more the artist is suffering, the less creative he is going to be."
– David Lynch
E cá estou eu, agora às 04:59, a dançar ao som de Get Lucky na versão da Karen Souza, enquanto vos escrevo o verdadeiro motivo pelo qual este universo da celebração do amor me é tão querido.
(Aliás, já ouviram esta versão? É linda! É daquelas que me inspira enquanto edito).
A verdade é esta: como é que uma vida cheia de cor, de procura por harmonia espiritual e amor-próprio, podia ser traduzida em dor? Como é que eu iria conectar-me com o “espetador” se aquilo que eu pensava que devia transmitir não fazia sentido para mim?
Foi aí que percebi que fazia muito mais sentido conectar-me com momentos de pura felicidade. E que melhores momentos do que dias tão especiais como os casamentos?
Sentia uma sede enorme de experienciar o que seria captar e contar estas histórias. Mas, no início, não foi fácil. Nunca é, quando temos de mudar o rumo dentro da nossa área. Mudei de cidade, onde poucos conheciam o meu trabalho. Apesar de ter os conhecimentos técnicos e criativos, não tinha portfólio. “Não tem experiência em casamentos.”
Até que, finalmente, surgiu a minha primeira oportunidade. Um grande amigo do liceu ia casar e confiou em mim para registar o grande dia. Quando cheguei a casa, depois daquela noite, senti uma esperança infinita.
O casamento foi lindo e emocionante, claro. Já experimentaram algo semelhante a poder, não só presenciar, mas de alguma forma fazer parte do grande dia de alguém que conhecem bem? Foi especial e ajudou-me a perceber que tinha encontrado o meu caminho. Como se uma pequena janelinha no sótão se tivesse aberto e, através dela, eu pudesse finalmente entrar até encontrar o salão de festas de um palácio.
É por isso que, mesmo antes do dia do casamento, eu adoro conhecer os casais. Saber as suas histórias, o que os faz sorrir, o que os emociona, as suas músicas favoritas, as suas cores. Perceber o porquê de terem escolhido um dia mais intimista e descobrir quem são as suas pessoas especiais.
São eles a minha inspiração. São eles que me fazem arrepiar nas cerimónias, dar gargalhadas na festa e chorar na edição. No final, não é isso que é a arte? A verdadeira emoção de um momento puro, eternizado?
A todos vocês, que partilham as vossas histórias comigo e que me fazem tão feliz por seguir este caminho, o meu muito obrigado 🤍